quinta-feira, 28 de abril de 2022

A infância roubada das "crianças de fábrica"

 

A ONU declarou 2021 como Ano para a Eliminação do Trabalho InfantilLink externo. Na Suíça, a exploração da mão-de-obra de menores é proibido desde o século 19, mas durante a industrialização do país, elas trabalhavam nas fábricas até o esgotamento. Abolir a prática foi uma grande luta política, influenciada até por estrangeiros.

Criança trabalhando ao lado de um operário em uma fábrica no leste da Suíça, em 1912. Schweizerisches Nationalmuseum

"Procura-se: duas famílias numerosas de trabalhadores, especialmente com crianças aptas ao trabalho, para trabalhar em uma fábrica de fiação".

Com este anúncio no jornal "Anzeiger von Uster", um industrial suíço procurava funcionários na década de 1870. Era evidente que as crianças das famílias operárias tinham que contribuir com a sua força de trabalho. O trabalho infantil não começou com a industrialização, mas deixou de ser algo do cotidiano para se tornar uma verdadeira exploração de mão-de-obra barata.

Agricultores e trabalhadores domésticos viam seus filhos como trabalhadores já antes da revolução industrialLink externo. A família era predominantemente uma comunidade de trabalho; era essencial que os mais jovens também trabalhassem. Assim que uma criança era grande o suficiente para cooperar, ela tinha de ajudar na fazenda ou oficina. Ao mesmo tempo, o trabalho árduo era tarefa dos adultos. Via de regra, as crianças faziam apenas os trabalhos que correspondiam às suas possibilidades. Elas não eram consideradas uma força de trabalho de total competência.

A industrialização descobre as crianças

A industrialização atravessou a Suíça a todo vapor. No século XIX, houve uma mudança de cenário - dos campos para a fábrica - mas ainda se considerava a criança como força de trabalho. Aí começou a exploração real: em contraste com o trabalho na agricultura, na indústria não havia diferença se o trabalho era desempenhando por um adulto ou criança. Afinal, não era preciso muita força física para alimentar a máquina de tecelagem.

Muitas destas "crianças de fábrica" trabalhavam nos teares e máquinas de bordar. As fábricas da indústria têxtil estavam localizadas principalmente na Suíça Oriental e no cantão de Zurique. Ao longo do rio Aabach, entre o lago de Pfäffikon (Pfäffikersee) e o lago Greifen (Greifensee), foi criado um conglomerado da indústria têxtil e, desta forma, de trabalho infantil. Quase um terço dos trabalhadores nessas fábricas tinham menos de 16 anos.

Algumas famílias tinham seu próprio tear ou uma máquina de bordar em casa, de onde trabalhavam por encomenda para as grandes empresas têxteis. As crianças também eram empregadas nessa tarefa caseira.

Os donos de fábricas colocavam anúncios em jornais para procurar crianças como operários. Na imagem, um anúncio do Jornal de Uster, em 1870. Anzeiger von Uster

Trabalho do início até o final do dia

O destino dos filhos e filhas de uma família de trabalhadores têxteis, seja em uma fábrica ou nos trabalhos domésticos, logo foi selado. Eles praticamente não tinham como se desenvolver de acordo com sua própria vontade. Ainda na mais tenra idade, passavam a maior parte do tempo no trabalho monótono em casa ou na fábrica, raramente na escola e brincar era praticamente impensável.

Trecho de uma redação escolar de um menino de 12 anos. Ele descreve seu cotidiano de operário, enfiando linhas nas agulhas dos teares, nos anos 1880.

"Assim que me levanto pela manhã, tenho que descer as escadas até o porão, para começar minha jornada. São mais ou menos cinco e meia da manhã. Aí eu tenho que enfiar as linhas nas agulhas dos teares até as sete horas e só então tomo o café-da-manhã. Depois volto ao trabalho até a hora de ir para a escola. Quando a escola termina, às onze horas, vou para casa e volto para as agulhas até às doze horas. Almoço e volto a trabalhar até pouco antes de uma da tarde. Retorno à escola, onde aprendo muitas coisas úteis. Quando chego em casa, trabalho até escurecer. Aí janto. Depois da janta, trabalho novamente até as dez da noite. Às vezes, quando o trabalho é urgente, fico até às onze da noite no porão. Depois digo aos meus pais boa noite e vou dormir. É assim todos os dias.

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Aos seis anos algumas crianças já trabalhavam para a indústria têxtil, em grande parte como auxiliares de bordador. Enfiar as linhas na agulha era então uma tarefa demorada, que exigia dedos mais finos e por isso era realizada principalmente por mulheres e crianças.

Quando eles chegavam à idade escolar, era normal que passassem até seis horas por dia enfiando linhas nas agulhas - no início da manhã antes da escola, ao meio-dia e depois da escola até tarde da noite.

Trabalho infantil como fator econômico

Tanto trabalho teve um impacto natural na saúde infantil. Os inspetores notaram as costas tortuosas, os olhos ruins e a impressão cansada e sem força das crianças. Um pastor de Appenzell-Ausserrhoden escreveu em 1905 sobre a vida de crianças trabalhadoras, cuja sobrecarga levou-as a estarem "cansadas, sonolentas, opacas, mental e fisicamente adormecidas. Elas eram desatentas e desinteressadas, dispersas e indiferentes a tudo".

A exploração das crianças da classe operária tinha um sistema, mas não se tratava de maldade ou ignorância. Por causa dos salários baixos, as famílias dependiam muitas vezes dessa renda adicional. Além disso, na virada do século, o filho de uma família de trabalhadores, artesãos ou camponeses, tinha uma posição muito diferente da de hoje. Para os pais, ele era principalmente uma força adicional de trabalho. 

Os empresários, convenientemente, viam nas crianças uma reserva ideal de mão-de-obra barata. Com este argumento econômico, muitos liberais defendiam o trabalho infantil. Victor Böhmert, importante economista da época, recomendou que as fiações "deveriam funcionar com trabalho infantil e trabalho feminino com baixos salários" como uma forma de enfrentar a concorrência internacional.

A região de Aabach (centro da Suíça), ao leste de Zurique, se tornou um centro industrial têxtil nos anos 1900. Kunstdenkmäler des Kantons Zürich, Bd. 3

Vozes críticas

No final do século XIX as críticas aumentaram e o trabalho infantil foi reconhecido como um problema sério. Mesmo Böhmert, o economista citado acima, já tinha suas reservas. Ele descreveu o trabalho infantil como um "aspecto negativo preocupante do moderno mundo fabril".

Hoje surpreende que as críticas ao trabalho infantil tenham vindo da burguesia e não das próprias famílias trabalhadoras. Afinal, elas tinham medo de não sobreviver sem a renda extra de seus filhos. Embora muitos políticos da burguesia tenham reconhecido o problema, pouco fizeram para mudar a situação. Foi na verdade um político independente quem desencadeou esse processo.

Indivíduo com missão social

Em 1867, o deputado federal Wilhelm JoosLink externo, sem partido, deu o primeiro passo ao apresentar um projeto de lei para o trabalho nas fábricas. Originário de Schaffhausen, Joos era conhecido por seu compromisso com os mais pobres. Era uma época em que essas posições eram vistas com grande desconfiança pelo poder local. Visto na época como uma figura obstinada, hoje ele é considerado um político visionário.

Quando Joos apresentou o primeiro projeto de lei nacional, alguns cantões já tinham leis que regulavam o trabalho nas fábricas, incluindo o trabalho infantil. Porém os empregadores eram muitas vezes muito negligentes e as regras diferenciavam-se muito entre os cantões.

A proposta de Joos de lançar uma lei federal demorou para dar frutos. Em 1877, dez anos depois da proposta original, a Suíça finalmente adotou sua primeira lei trabalhistaLink externo de amplitude nacional. Com isso o trabalho infantil também foi proibido. Essa primeira lei trabalhista da Suíça era uma das mais rigorosas do mundo. O ex-conselheiro federal socialista Hans-Peter Tschudi chamou-a de uma "conquista pioneira em escala internacional".

Muitas famílias empregavam as suas crianças em trabalhos manuais como tecelagem. Essa renda adicional era importante para a sua sobrevivência. Na foto, uma menina de 7 anos no cantão de Schwyz, por volta de 1900. Schweizerisches Sozialarchiv

Trabalho infantil de acordo com a nova lei

Teoricamente, as crianças deveriam ter desaparecido das fábricas. Até a nova lei ser respeitada em toda a Suíça, levou algum tempo. No Ticino, por exemplo, 20 anos após a sua entrada em vigor, as crianças ainda trabalhavam nas fábricas.

De toda maneira, o trabalho infantil pouco a pouco desapareceu, pelo menos nas fábricas. Na agricultura a situação era diferente: ela durou até boa parte do século 20. Muitas famílias camponesas mantiveram ainda por cima crianças escravas, as chamadas “Verdingkinder” (ver box abaixo). Este capítulo sombrio da história suíça só foi revisado adequadamente há alguns anos.

Até meados do século 20 era comum encontrar crianças trabalhando na agricultura. Na foto, dois meninos em uma fazenda de Kriens, próximo à Lucerna, em 1944. Paul Senn, FFV, Kunstmuseum Bern, Dep. GKS. © GKS.

Suíços pagam por trabalho infantil no exterior

Desde então não há mais trabalho infantil na Suíça. Mas sempre há casos de empresas suíças acusadas de se beneficiar do trabalho infantil no exterior. O exemplo mais recente ocorreu com o grupo de cimento Lafarge Holcim, acusado de comprar matérias-primas na África Oriental extraídas por crianças.

Uma iniciativa de responsabilidade corporativa exige agora que essas empresas sejam responsabilizadas. Seus iniciadores defendem que empresas suíças atuantes no exterior cumpram as leis suíças também em outros países. Uma demanda controversa: a adoção de uma iniciativa semelhante poderia prejudicar a Suíça como centro econômico internacional, conforme predizem alguns analistas econômicos.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

"Verdingkinder", as crianças escravas

Em sua maioria originárias de famílias pobres, mães solteiras ou órfãs, essas crianças eram colocadas (às vezes à força) sob a guarda das autoridades até serem despachadas para famílias de acolho, geralmente em fazendas. Ali elas eram frequentemente tratadas como escravas e usadas para trabalho forçado sem pagamento. De acordo com diversos testemunhos da época, elas eram exploradas, humilhadas e até violadas. Algumas inclusive foram mortas.

domingo, 3 de abril de 2022

RELIGIÃO NATURALISTA: DEÍSMO NA PERSPECTIVA DE VOLTAIRE

 


O homem é um ser caracterizado por grandes capacidades intelectuais e práticas, mas, em sua finitude, é concomitantemente um ser frágil que se encontra em meio a grandes forças externas, como a natureza e a sociedade, e forças internas, como os instintos e as paixões. Por causa de sua fragilidade, inquieta-se com o sentido de sua existência e sempre se pergunta qual o sentido de seu nascimento, de sua morte, da angústia, do medo, do sofrimento e do desespero. Diante disso, busca algo que lhe traga esperança, algo que lhe dê segurança e sentido para a vida, encontrando assim respostas na aceitação de um ser superior a ele, um ser perfeito e eterno, que é “Deus”.

Porém Deus não é um ser material, tangível, do qual facilmente se constate a existência. Por isso, sua existência foi e é uma questão muito discutida, principalmente no âmbito da filosofia. Vários filósofos escreveram sobre este tema e tentaram argumentar sobre a existência de Deus. Assim, será tratado neste artigo, especificamente, a perspectiva de Voltaire.

Voltaire (1694-1778) foi um filósofo francês iluminista considerado “deísta”1 (embora o próprio Voltaire use o termo teísmo para designar sua concepção de Deus). Acredita que Deus se manifesta ao homem não pela revelação histórica como a tradição judaico-cristã, mas através da razão, de modo que, negar a existência de Deus seria um absurdo, pois segundo ele: “Deus existe como a coisa mais verossímil que os homens podem pensar e a proposição contrária como uma das mais absurdas” (VOLTAIRE, 1978b, p.68).

No entanto, o filósofo em questão tem uma visão cética em relação à metafísica, pois a razão humana não é capaz de conhecer a natureza divina e a realidade transcendente. Ao contrário da presunção da antiga metafísica, que se gabava de tudo conhecer, Voltaire evita o conhecimento que supera o limite da natureza humana, porque segundo ele: “a verdadeira filosofia consiste em saber deter-se no ponto exato e nunca continuar sem um guia seguro”. Isto é, não existe um guia seguro para a metafísica, justamente por causa da insuficiência da razão em relação à realidade supra-sensível.

Contudo, Voltaire acreditava numa certa ordem inerente à natureza. Uma prova desta ordem inerente é o fim com que cada coisa se relaciona, pois este fim comprova que existe uma função para cada coisa no universo, conforme se segue: “Não há arranjo sem objeto, nem efeito sem causa; logo tudo é igualmente o resultado, o produto de uma causa final; logo, é tão verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para trazer lunetas, como é verdadeiro dizer que as orelhas foram formadas para ouvir os sons e os olhos para receberem a luz”. (VOLTAIRE, 1978a, p.191). 

Deste modo, a partir da ordem inerente da natureza, Voltaire deduz duas provas da existência de Deus, as quais segundo ele resumiriam todas as outras provas e também todos os outros escritos sobre esta questão. Sendo assim, o primeiro argumento a ser considerado é exatamente esta ordem do universo, mas não só ela, como também o fim com que cada coisa se relaciona:

Quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, disso concluo que um ser inteligente montou as engrenagens desta máquina para que o ponteiro marque as horas. Assim quando considero as engrenagens do corpo humano, concluo que um ser inteligente montou os órgãos para serem recebidos e nutridos por nove meses na matriz: que os olhos nos são dados para ver, às mãos para segurar, e assim por diante. (VOLTAIRE, 1978b, p.63).

Por esse motivo, para Voltaire, como para Newton, Deus é o grande engenheiro ou mecânico que idealizou, criou e regulou o sistema do mundo, ou seja, se existe uma ordem no universo é porque alguém ordenou, e o relógio é uma prova inegável da existência do relojoeiro, assim como o mundo é uma prova evidente da existência de um Criador Supremo que é Deus. “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo, porém a natureza proclama a sua existência”.

O segundo argumento a ser considerado é mais metafísico, partindo assim, do pressuposto da necessidade da existência de um Ser que exista necessariamente e seja eterno, pois se existe uma coisa ou existe eternamente ou foi criado por um Ser eterno que existe por si mesmo.

Existo, portanto alguma coisa existe. Se algo existe, existiu desde toda eternidade, pois aquilo que é, ou é por si mesmo ou recebeu seu ser de outro. Se é por si mesmo, é necessariamente, sempre foi necessariamente e é Deus. Se recebeu o ser de outro, e este seu ser de um terceiro, aquele de quem este último recebeu seu ser deve ser necessariamente Deus, pois não podeis conceber um ser que dê o ser a um outro se não tiver o poder de criar. (VOLTAIRE, 1978b, p.64)

Neste argumento a existência de Deus é provada pelo fato de ter que existir um Ser que exista necessariamente por si mesmo. Pois se existe algo, existe necessariamente por si mesmo desde toda eternidade ou seu ser deriva de um outro ser que existe desde toda eternidade sendo o seu ser a origem de todos os outros seres. Logo, este ser necessário que existe por si mesmo é Deus. E por fim, basta agora examinar, segundo a reflexão de Voltaire, se o mundo material é este Ser necessário que existe por si mesmo e que é a origem dos outros seres que não são necessários.

Se este mundo material existisse por si mesmo de modo absolutamente necessário, seria contraditório pensar que a mínima parte dela poderia ser diferente de como é, pois, se o seu ser neste momento é absolutamente necessário, isso é suficiente para excluir qualquer outra maneira de ser. Ora está fora de dúvida que esta mesa sobre a qual escrevo, esta pena de que me sirvo, não foram sempre aquilo que são; estes pensamentos que traço sobre esta folha um momento antes nem sequer existiam, e não existem de modo necessário. Ora, se cada parte não existe com absoluta necessidade, é impossível que o todo exista por si mesmo. Eu produzo movimento; portanto um movimento antes não existia; portanto, não é essencial a matéria; portanto ela o recebe de outro; portanto, há um Deus que o comunica a ela. (REALE, ,2005 p.73.)

Desta forma, se a matéria existisse como uma necessidade absoluta, todas as partes dela deveriam existir necessariamente. Porém, as partes não existem necessariamente, pois uma mesa nem sempre foi uma mesa e uma caneta nem sempre foi uma caneta. Sendo assim, se as partes não existem necessariamente, o todo também não existe necessariamente. Logo, a matéria não existe necessariamente e não é Deus. Pois como se percebeu, Deus é um ser que existe necessariamente por si mesmo.

Portanto, fica claro no pensamento de Voltaire que Deus se revela aos homens por meio de sua razão, no entanto esta mesma razão não é capaz de conhecer a realidade transcendente. E a existência de Deus é algo inegável, pois a natureza proclama sua existência, ou seja, as provas de sua existência são tiradas da ordem inerente que existe na natureza e esta ordem se dá pelo fim com que cada coisa se relaciona no universo.

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes. 2000.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2005.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Moderna: da revolução científica a Hegel. São Paulo: Loyola, 1999.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978a. (Os Pensadores)

VOLTAIRE. Tratado de Metafísica. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978b. (Os Pensadores)

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[1] “Deísmo – Doutrina de uma religião natural ou racional não fundada na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade à razão do homem. O D. é um aspecto do iluminismo (v.), de que faz parte integrante.(…) O D. difundiu-se fora da Inglaterra como elemento do iluminismo: são deístas quase todos os iluministas franceses , alemães e italianos. Nem todos, porém, usam a palavra D. para designar sua crenças religiosas: Voltaire, p. ex., usa a palavra ‘teísmo’. (…) Nota-se, porém, que em relação ao conceito de Deus nem todos os deístas estavam de acordo. Enquanto os deístas ingleses atribuíam a Deus não só o governo do mundo (a garantia da ordem do mundo), mas também o do mundo moral, os deístas franceses, a começar por Voltaire, negam que Deus se ocupe dos homens e lhe atribuem a mais radical indiferença quanto a seu destino.” (ABBAGNANO, 2000, p. 238). Voltaire usa a palavra teísmo com o mesmo significado do deísmo para os demais iluministas, “afirmando que Deus governa o mundo e na retribuição do mal e do bem na vida futura. Porém , quanto à concepção de Deus nem todos os deístas comungam da mesma idéia. Enquanto os deístas ingleses atribuem a Deus o governo do mundo físico e do mundo moral, os deístas franceses, a começar por Voltaire, negam o governo do mundo moral (…), por isso, ele acredita que a historia é uma questão dos homens, inclusive o mal”(REALE, 2005, p. 257).




domingo, 20 de março de 2022

O DESPOTISMO ESCLARECIDO

 



 
 O despotismo esclarecido foi uma forma de governo inspirada em alguns princípios do Iluminismo europeu. O fenômeno ocorreu em certas monarquias da Europa continental, sobretudo a partir da segunda metade do XVIII.

Origem

A expressão “despotismo esclarecido” foi cunhada pelo historiador alemão Wilhelm Roscher, em 1847, portanto, não foi contemporânea a tal política.

O historiador, com este termo, queria explicar uma série de governos que adotaram vários princípios iluministas como o racionalismo, os ideais filantrópicos e o progresso.

No entanto, estes mesmos governos não fizeram nenhuma concessão à limitação do poder real ou expandiram os direitos políticos para as demais camadas da população. Por isso, ele é também conhecido por "despotismo benévolo" ou "absolutismo esclarecido".

Despotismo & Iluminismo.

O surgimento das teorias iluministas, conforme sabemos, serviu de base para a maioria dos argumentos que criticaram a vigência dos regimes absolutistas europeus. Por conta de suas justificativas religiosas e a opressão do poder centralizado, o regime monárquico era visto como um enorme entrave para o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e racional. Dessa forma, podemos chegar ao ponto de acreditar que os regimes absolutistas tinham completa aversão às teorias do iluminismo.

Apesar de coerente, essa impressão não refletiu certeiramente as diferenças perceptíveis nas obras de alguns iluministas. Voltaire, por exemplo, apesar de defender a limitação dos poderes atribuídos ao Estado, não via com bons olhos a ampliação das instâncias de participação política da população. Contrário à transformação política radical, prefere que as monarquias sejam reformadas ao adotarem princípios de orientação sustentados pela lógica e pela razão.

Não por acaso, essa ideia apontada pelo autor francês trilhou o caminho pelo qual diversos monarcas da Europa permitiriam a incursão de assessores e ministros influenciados pelo ideário iluminista. Entre outras mudanças, as reformas estabelecidas por esses funcionários tinham como objetivo modernizar o funcionamento do Estado, ampliar o número de instituições de ensino e possibilitar o desenvolvimento da economia nacional.

Curiosamente, o despotismo esclarecido parecia fazer uma escolha pontual das ideias do iluminismo, afastando qualquer tipo de medida que viesse a ameaçar ou diminuir a autoridade do rei em seu país. Além disso, no momento em que pregava a expansão das atividades econômicas, o despotismo esclarecido acabou amenizando as tensões políticas que pudessem se colocar entre a burguesia e a realeza.

Observado o desenvolvimento de tal tendência na Europa, podemos compreender que a penetração de valores iluministas nos governos monárquicos não aconteceu de forma semelhante. Na França, o amplo poder real e a irredutibilidade mediante as manifestações populares criaram o ambiente de tensões que desembocou no desenvolvimento da Revolução de 1789. Décadas mais tarde, as outras monarquias ruíram por meio da inspiração francesa.

Entre os principais governos marcados pelo despotismo esclarecido, podemos destacar os monarcas Catarina II da Rússia, Dom José II de Portugal (influenciado pelo ministro Marquês de Pombal), Frederico II da Prússia, José II da Áustria e Carlos III da Espanha (orientado pelos conselhos do ministro Conde de Aranda).

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O MUNDO DE SOFIA - O ILUMINISMO

 

Sofia acordou na manhã seguinte com sua mãe entrando no quarto com uma bandeja cheia de presentes e desejando feliz aniversário. Em suma o início da manhã foi como qualquer outro dia de aniversário. Sofia abriu seus presentes e sua mãe ficava relembrando de quando ela era criança.

Em um dado momento sua mãe sugere que acha melhor ficar em casa e não ir trabalhar. Sofia a questiona e sua mãe diz que está preocupada com a filha por achar ela muito perturbada no dia anterior. Sofia a interroga sobre o mesmo comportamento e sua mãe diz que ela estava se culpando por tudo isso. Também questiona Sofia se Alberto tem alguma relação com tudo isso. Sofia deixa claro que não e pede pra sua mãe ir trabalhar.

Pouco depois de sua mãe ter saído para o trabalho, Alberto liga na casa de Sofia e eles conversam sobre os acontecimentos. Alberto cita algo com relação a que suas aulas não podem ultrapassar o dia de São João e que, para ganhar tempo, irá encontrá-la para continuar seu curso de filosofia em um local já conhecido, “a cabana do major”. Sofia o interroga do porque e Alberto fala de que, dado os fatos anteriores, supõe que o Major até essa data retornará e a história a qual Sofia e Alberto estão inseridos deixará de ser produzida porque já terá chegado ao fim.

Mas Alberto cita que pretende arrumar um jeito de modificar um pouco o curso de toda essa história. Cita que quer usar a própria filosofia como arma, uma vez que, segundo Descartes, “Penso logo existo”. Cita então que pretende mostrar ao Major que eles, com isso, irão provar que não são somente personagens fictício que o Major use para ensinar filosofia para seu anjo Hilde, mas não revela nada a respeito por segurança.

Dito isso, Alberto passa a falar do assunto a que ligou, ou seja, falar resumidamente sobre o Iluminismo. Sofia tenta dizer que precisa ir a escola buscar seu boletim, mas Alberto a cobra sobre a postura de uma verdadeira filósofa e que deixe essa conversa de boletim de lado dado o momento em que estão vivendo, embora Alberto tenha plena certeza que Hilde jamais faria isso. Sofia então combina com Alberto que passará rapidamente na escola e irá para a cabana do major para que continuem.

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Hilde fica com a consciência pesada por ter faltado à aula em seu último dia. Seu pai a deixou sem argumentos. Mas estava torcendo por Alberto e Sofia no planejamento que estavam fazendo sobre mostrarem ao Major (seu pai) que realmente poderia ser mais que simples personagens de um livro direcionado para Hilde.

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Sofia passa na escola e, como em todos os outros aniversários, a história se repete. Comprimentos, desejos de boas férias, despedidas e outras formalidades. Sofia sai correndo em direção de sua casa para conseguir cumprir o combinado com Alberto, inclusive deixando Jorunn para trás dizendo que tinha um compromisso muito importante.

Ao chegar próximo à caixa postal de sua casa, Sofia vê mais cartões postais de feliz aniversários, inclusive com um “feliz aniversário” para ela diretamente (não apenas para Hilde como era de costume). Outro cartão trás mais uma vez o feliz aniversário para Hilde e cita que Sofia irá estudar sobre o Iluminismo.

Ao chegar à “cabana do major”, Sofia entre os cartões que recebeu. Alberto ignora-os e inicia sua aula sobre Iluminismo.

Depois de Hume, Kant foi o próximo grande construtor de um sistema filosófico. Mas a França também teve muitos pensadores importantes no século XVIII. Podemos dizer que o centro filosófico concentrou-se no começo desse século na Inglaterra, no meio do século ficou na França e no final do século ficou na Alemanha.

Nesse período, houve muitos pensadores de grande importância e um modo comum de se pensar tornou-se popular, a esse novo modo de pensar deu-se o nome de “Iluminismo”.

O primeiro ponto do iluminismo que merece destaque foi a revolta contra as autoridades e contra o autoritarismo que se instaurava na época, o qual impunha um conhecimento controlado e que deveria ser filtrado ou restrito para se evitar uma anarquia e/ou heresia em massa. Essa luta era em prol da defesa de uma visão cética de tudo. Isso seria vital para que um individuo pudesse encontrar respostas de uma maneira verdadeira e não viciada em pré-conceitos como era praticado (a essência de Descartes).

A revolta contra o autoritarismo não tardou a se voltar também contra o poder da igreja, do rei e da aristocracia. Então o racionalismo de Hume surge como um novo modo de encarar a religiosidade, ética e moral na visão dos iluministas.

Os iluministas também acreditavam que era uma questão de tempo até que todo o conhecimento fosse difundido entre todos, aniquilando por fim a ignorância e a irracionalidade surgindo assim uma sociedade iluminada e esclarecida. Esse movimento ficou conhecido como “otimismo cultural”.

A palavra de ordem passou a ser “de volta a natureza” e um consenso coletivo passou a permear a sociedade iluminista. Esse conceito foi criado e difundido por Jean-Jacques Rousseau. Ela afirmava que a natureza era boa e que o homem era naturalmente bom, portanto que deixava o homem mal era a civilização criada por ele mesmo.

Desse modo naturalista de pensar, surgiu o que foi chamado de “cristianismo humanista”. Embora nesse período já existissem os chamados ateus (aqueles que não acreditam de Deus), os iluministas acreditavam que, racionalmente falando, era impossível que um mundo tão perfeito não contivesse por detrás um Deus, seja Ele como for.

Por ultimo, nesse período foi criado o conceito talvez mais importante do movimento, “os direitos humanos” ou direitos naturais dos cidadãos. Esse direito garantiria acima tudo a liberdade de expressão e a garantia de que todos devem ser livres em se manifestar e adquirir conhecimentos. Essa primeira versão dos direitos da humanidade não previa a igualdade de maneira clara entre mulheres e homens. Foi somente no século XIX que esse direito foi mais bem definido.

Neste momento, Alberto olhou para o lago e disse que achava melhor encerrar por ali. Sofia não entendeu o “achava” e neste momento uma serpente marinha apareceu no meio do lago. Sofia ficou estarrecida com a visão, mas Alberto não esboçou nenhuma expressão. Após esse acontecimento bizarro, Alberto ficou mais triste aparentemente e ambos entraram novamente para a cabana do major. Então Sofia foi até o quadro na cabana que estava escrito Bjerkely e disse que suspeitava que Hilde morava ali. Abaixo do quadro havia 3 palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Nesse momento Sofia se vira para a lareira e vê mais um cartão postal. Não se deu ao trabalho de ler o remetente, pois já sabia quem era. No cartão, o Major falava sobre o esquecimento de Alberto em citar que a filosofia do iluminismo foi de vital importância na construção dos ideais e princípios que constitui os pilares da ONU. Antes as palavras liberdade, igualdade e fraternidade tinham como objetivo unir a França. Hoje essas palavras têm como objetivo unir o mundo.

SLIDES - ILUMINISMO

 

















O ILUMINISMO - 1º BIMESTRE

 

 

O Iluminismo foi um movimento intelectual que surgiu durante o século XVIII na Europa, que defendia o uso da razão (luz) contra o antigo regime (trevas)  e pregava maior liberdade econômica e política. Este movimento promoveu mudanças políticas, econômicas e sociais, baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.O Iluminismo tinha o apoio da burguesia, pois os pensadores e os burgueses tinham interesses comuns. 

 Os filósofos Iluministas começaram a se mobilizar em torno da defesa de ideias que pautavam a renovação de práticas e instituições vigentes em toda Europa. Levantando questões filosóficas que pensavam a condição e a felicidade do homem, o movimento iluminista atacou sistematicamente tudo aquilo que era considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade.

Dessa maneira, os iluministas preocuparam-se em denunciar a injustiça, a dominação religiosa, o estado absolutista e os privilégios enquanto vícios de uma sociedade que, cada vez mais, afastava os homens do seu “direito natural” à felicidade. Segunda a visão desses pensadores, sociedades que não se organizam em torno da melhoria das condições de seus indivíduos concebem uma realidade incapaz de justificar, por argumentos lógicos, sua própria existência.

Por isso, o pensamento iluminista elege a “razão” como o grande instrumento de reflexão capaz de melhorar e empreender instituições mais justas e funcionais. No entanto, se o homem não tem sua liberdade assegurada, a razão acaba sendo tolhida por entraves como o da crença religiosa ou pela imposição de governos que oprimem o indivíduo. A racionalização dos hábitos era uma das grandes ideias defendidas pelo iluminismo.

As instituições religiosas eram sistematicamente atacadas por esses pensadores. A intromissão da Igreja nos assuntos econômicos e políticos era um tipo de hábito nocivo ao desenvolvimento e ao progresso da sociedade. Até mesmo o pensamento dogmático religioso era colocado como uma barreira entre Deus e o homem. O pensamento iluminista acreditava que a natureza divina estava presente no próprio indivíduo e, por isso, a razão e o experimento eram meios seguros de compreensão da essência divina.

Inspirados pelas leis fixadas nas ciências naturais, os iluministas também defendiam a existência de verdades absolutas. O homem, em seu estado originário, possuía um conjunto de valores que fazia dele naturalmente afeito à bondade e igualdade. Seriam as falhas cometidas no desenvolvimento das sociedades que teria afastado o indivíduo destas suas características originais. Por isso, instituições políticas preocupadas com a liberdade deveriam dar lugar às injustiças promovidas pelo Estado Absolutista.

Por essas noções instalava-se uma noção otimista do mundo que não teria como interromper seu progresso no momento em que o homem contava com o pleno uso de sua racionalidade. Os direitos naturais, o respeito à diversidade de ideias e a justiça deveriam trazer a melhoria da condição humana. Oferecendo essas ideias, o iluminismo motivou as revoluções burguesas que trouxeram o fim do Antigo Regime e a instalação de doutrinas de caráter liberal.

PLANO ANUAL HISTORIA 8ª ANO - SIGEDUC

  PLANO ANUAL OBJETOS DE CONHECIMENTO: 1º BIMESTRE: Iluminismo; Mulheres Iluministas; Despotismo Esclarecido; Religião Naturalista: Deí...